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Por que os franceses estão mais fudidos do que nós?

23/02/2016
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Como eu falei naquele post sobre minha viagem à Suíça (O País da Trambicagem: 7 Bagulhos Doidos Sobre A Suíça), a França está para Suíça assim como a Baixada Fluminense está para o Rio de Janeiro.

O trabalhador proletário de Genebra tem muita dificuldade para bater de frente com o altíssimo custo de vida da cidade.

Afinal, de acordo com esse report da Revista Fortune, Genebra é a 2a cidade mais cara do mundo.

Resultado? Para os trabalhos mais “sujos”, a Suíça acaba importando trabalhadores que moram no país pobre do outro lado dos Alpes.

Esses “imigrantes diários” são tão importantes para a economia local que o sistema de transporte público da cidade de Genebra é meio que binacional.

Tá ligado que você consegue pegar um buzão direto de Caxias e São João de Meriti para a Central do Brasil no centro do Rio de Janeiro?

Bom, no caso deles, é o próprio governo suíço que banca as linhas “intermunicipais-internacionais” para buscar os trabalhadores franceses que batem ponto em Genebra todos os dias.

 

ENCHEU O SACO JÁ… VOU PRA LYON

franceses do chomage lyon

Vou te mandar a real: não tem porra nenhuma para fazer em Genebra.

Depois que cumpri aquela missão de conhecer o Paulo Coelho, eu fiquei praticamente à toa por lá.

Já que eu tinha mais 6 dias de Europa, passei um tempo no GoogleMaps explorando o mapa da região em busca de rolés alternativos.

Daí eu lembrei que meu sócio francês Paul Benayoune e minha ex-estagiária Giovana estariam em Lyon naquela semana. 


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Lyon é a segunda maior cidade da França e fica a pouco mais de 1 hora de ônibus de Genebra.

O Paul namora uma amiga minha de infância lá de Brasilia chamada Rebecca e os dois fazem mestrado em business numa das universidades mais tops de Lyon.

Entrei no Rome2Rio (melhor plataforma do mundo para viajar barato) e vi que tinha um ônibuzinho low-cost chamado Flixbus entre Genebra e Lyon.

Paguei 7 euros, peguei o bus no centrão de Genebra e, uma hora depois, já estava em Lyon-Perrache para passar uns dias no sofá dos meus amigos.

Quando eu era muleque e vivia de fanfarronice, eu só viajava para fazer check-in, ganhar likes no Instagram e correr atrás de mulher gringa (leia o livro Turismo Ousadia: Como Conquistar o Mundo Ainda Jovem).

Hoje em dia, minha vibe tá parecida com a do megainvestidor Jim Rogers nos livros Adventure Capitalist e Investment Biker: viajar para observar a economia local, tirar conclusões e, quem sabe, ganhar um dinheirinho em cima disso.

Lembra das minhas conclusões sobre o rolê no Panamá ano passado? Se liga no post Turismo Ousadia: Panamá, a Dubai das Américas.

Acho que dentro desse contexto de observador, a parada que eu mais me interesso é comparar a juventude de cada lugar.

O que eles estão fazendo? Quanto eles ganham? Qual o sonho deles? Como eles se divertem?

 

 

GERAÇÃO MIL-EURISTA

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De Lyon-Perrache peguei o metrô para a estação Masséna, que fica a alguns quarteirões do apartamento dos meus anfitriões.

Notei que os dois estavam meio desacreditados com relação à economia do país e comecei a fazer perguntas com uma vibe mais investigativa.

Tudo bem que o francês já é pessimista de natureza… mas notei algo bem mais pesado no discurso do casal e de seus amigos locais que passaram lá no apê para tomar um vinho com a gente.

Lembro que, na época que eu morava na Espanha, o maior medo da mulecada que estudava economia comigo na Universitat Pompeu Fabra era virar mileurista.

 

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Na França, o negócio não era muito diferente não.

Como o nome já diz, mileurista é a pessoa que ganha 1.000 euros por mês de salário.

Pô… com o câmbio atual, isso aí é um salário de 4.350 reais. Tá bom pra começar, né?

Não necessariamente.

Vamos esquecer um pouco as conversões e imaginar que, para os franceses, mil euros é igual a mil reais. 

Aí coloque-se na posição dessa galera:

 

1) Você estuda sua vida inteira para passar numa boa faculdade da França…

2) Depois você estuda a graduação inteira para passar num bom mestrado….

3) Depois você se esforça durante o mestrado inteiro para conseguir um bom emprego….

 

Só que não tem emprego…

E você não tem experiência de trabalho para conseguir um dos poucos empregos disponíveis porque passou os últimos 7 anos estudando no modo hardcore. 

De acordo com a Rebecca, só tem emprego para programador. Hmmm isso tá me cheirando àquele post agressivo que eu soltei aqui no ano passado, hein? Lembra do Pare de aprender idiomas?

E essa parada de não ter emprego para recém formados ainda não é a pior parte…

Se liga na pedrada: sabe quanto ganha um garçom, um padeiro ou um atendente do McDonalds lá na França?

Por volta de 1.000 euros por mês…

E sabe quanto ganha aquele sortudo com mestrado e experiência de trabalho que conseguiu emprego num escritório de empresa?

Por volta de 1.000 euros por mês…

Sim, os franceses estão passando por um problema estrutural muito brabo.

O cara qualificado ganha basicamente o mesmo do que o cara que nunca estudou na vida.

Oferta e demanda: tem muito trabalhador qualificado para pouca vaga de trabalho!

E agora? Qual é a motivação para estudar?

 

FRANCESES DO CHÔMAGE

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O Paul me contou que muitos de seus amigos preferem aproveitar uma espécie de “bug” no sistema francês para ganhar um troquinho.

Na França, tem uma política social que os locais apelidaram de CHÔMAGE.

Ao pé da letra, chômage significa simplesmente desemprego.

Só que, na linguagem da mulecada, essa porra aí ganhou uma conotação positiva e virou uma fonte de receita!

Segundo o Paul, seus amigos (qualificados) trabalham por 6 meses de peão e pedem as contas no sétimo mês.

Com 6 meses de trabalho, você está qualificado para ganhar uma espécie de seguro-desemprego do governo.

Quantia? Os mesmos 1.000 euros que ele ganharia se trabalhasse 8 horas por dia lavando pratos. Acaba sendo até mais porque o tal do chômage é livre de impostos.


 

Sim, senhores… o governo te dá 1.000 euros por mês durante um ano inteiro para NÃO FAZER PORRA NENHUMA.

Você deve estar pensando:

“Oóóó… aqui no Brasil também tem o bolsa família.”

Só que o Bolsa Família brasileiro atinge uma camada da sociedade que, cá entre nós, não está nem aí para nada.

Ou você acha que o cara que recebe bolsa família há 10 anos seguidos realmente quer mudar de vida e sair daquela condição?

Digo que o problema dos franceses é pior que o nosso porque quem recebe esse chômage é o jovem diplomado e de classe média.

Esse jovem de classe média pega os 1.000 euros que ele ganha mensalmente do governo e vai viajar o mundo.

Cansou de viajar? Volta pra França, trabalha mais 6 meses e pede chômage de novo…

Aí… não me lembro de uma época tão favorável quanto agora para dar rolês ao redor do mundo… principalmente para essa galera europeia.

Irmão, o euro está altamente valorizado frente a grande maioria das moedas do mundo.

Lembra da história daquele europeu que gastou 100 euros para passar um mês inteiro na Venezuela de patrãozão-rei do-camarote dirigindo Ferrari e comendo várias putas?

Não ficou sabendo desse mito aí?

Então força um pouquinho o seu portunhol e se liga no Hoteles de lujo, drogas y coches deportivos: viví un mes de puta madre en Venezuela por 100 euros da VICE España.

Eu mesmo saía com uma francesa de Paris na época que eu ainda morava nos Estados Unidos.

Ela era formada em dança mas, na real, não fazia porra nenhuma da vida.

Só viajava…

Toda semana, ela postava foto em uma cidade diferente da costa leste: Washington, Toronto, Miami, Philadelphia, Nova York, etc.

O engraçado é que ela sempre tinha dinheiro no bolso e sempre se oferecia para dividir a conta dos restaurantes comigo.

Ela era muito bonita e é claro que eu comecei a suspeitar do seu “ganha-pão” duvidoso, né? No próprio livro Wall Street – O Livro Proibido, eu falei sobre o submundo das modelos de passarela book rosa de Nova York, lembra?

Até que um dia ela me explicou que o governo francês pagava 1mil euros por mês de “bolsa-artista”… tudo isso como parte de um programa francês para estimular aquela imagem artística que o país tem no cenário mundial.

Então, como funciona essa bolsa-artista?

Tudo que ela precisava fazer para ganhar os 1.000 euros mensair era montar uma coreografia de dança e apresentá-la em algum teatro do país. Sim…apenas uma coreografia por ano!

Que beleza, hein?!

 

SÍNDROME DE VIRA LATA

VIRA LATA

Uma das paradas que eu mais odeio do mundo é a porra do complexo de vira-lata que o brasileiro tem.

Eu fico mais puto ainda quando isso vem de pessoas que nunca moraram no exterior.

Puta que pariu… como é que você vai que dizer que morar no país X é melhor do que no Brasil se tu nunca colocou o pé fora da tua cidade, caralho?

Mano, eu morei 11 dos meus 25 anos no exterior. Fala tu, maestro Tom Jobim:

tom jobim

Pergunta se eu moraria de novo em Nova York? Ou em Philadelphia? Ou na Itália?

Claro que não! Meu lugar é aqui… e foda-se aquelas pessoas que dizem que eu tenho que meter o pé porque esse país é retrógrado.

O engraçado é que quem fala isso geralmente são aquelas mesmas pessoas que nunca pisaram fora do país.

Por causa da falta de conhecimento, elas têm uma imagem meio que idealizada do que é morar no exterior e ganhar em dólar ou euro.

Já repeti pelo menos umas 10 vezes aqui no blog o quão admirado eu sou pelo meu avô Gonçalo.

Meu vô fugiu do sertão do Ceará a bordo de um pau-de-arara nos anos 1950 e construiu uma carreira de garçom nos restaurantes mais chiques aqui do Rio de Janeiro.

Até hoje, ele se orgulha em dizer que serviu gente como Charles de Gaulle, Edith Piaf e Brigitte Bardot lá no restaurante francês que ele trabalhava.

Acho que, por causa das histórias que ele contava, nossa família foi criada sob o seguinte princípio: tudo que vem da França é chique, lindo e maravilhoso.

Aí é o seguinte: fui à França pela primeira vez quando tinha meus 18 anos de idade.

E não é que aquele pensamento do meu avô foi reforçado? Puta que pariu… que lugar requintado e sensacional!

Só que eu estava no meio do “oba-oba” de Paris… e a França não é só Paris, mano.

Aí vamos para o título do artigo: por que os franceses estão mais fudidos do que nós?

Bom, o negócio aqui no Brasil está ruim…. e insuportável.

O caso da França chega a ser pior: tá ruim… mas tá suportável.

Caralho, Raiam?

Por que ruim-insuportável é melhor do que ruim-suportável?

Vou voltar a um conceito do PHD Cal Newport, autor daquele livro que adoro citar nos meus posts e palestras chamado SO GOOD THEY CAN’T IGNORE YOU.

“It’s worse to tolerate your job than to hate it because, if the pain is painful enough, you’ll make a change,”

Quando tá ruim, nego se chacoalha todo para arrumar um jeito de mudar a situação.

Irmão, é o que está acontecendo agora no nosso país.

Aposto com você que vai sair muita empresa/ideia extremamente criativa e revolucionária dessa crise merda que a gente está passando.

Agora vamos para o outro lado da moeda:

“But if it’s tolerable mediocrity, and you’re like, ‘Well, you know it could be worse. At least I’m getting paid.’ Then you wind up in a job that is slowly killing your soul.”

Quando o negócio tá ruim mas tá suportável, a população inteira entra num estado de complacência filha da puta. Depois dá uma olhada no livro O Mito do Governo Grátis.

E assim como a frase aí de cima, essa porra vai matando a alma das pessoas pouco a pouco.

Imagina um país inteiro de funcionários públicos reclamões, passivos, frustrados e com teto de carreira?

Essa foi exatamente a vibe que eu tive da França!

Vou te falar… sou muito mais o Brasil, hein! Ainda mais agora que a “geração mediocridade” tá começando a pagar pelas tretas que cometeram ao longo dos últimos 20 anos.

Alguém quer apostar comigo que daqui a uns 20 anos a nossa economia vai estar bem melhor que a deles?

Chega aí embaixo nos comentários que eu leio tudo.

~ Raiam

 


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