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Intercâmbio na Arábia Saudita? Petrodólares, burkhas e um diploma de presente

02/08/2016

De vez em quando eu convido uns camaradas com histórias meio diferentes para escrever aqui no blog.

Eu tenho máximo respeito por pessoas que saem da zona de conforto cedo e metem o pé no mundo na cara e na coragem.

Fui um desses e pode ter certeza que meus filhos e meus netos também serão assim.

O último maluco que eu trouxe no MundoRaiam foi o Stéfano Fiúza lá do Rio.

Stéfano é formado em medicina e tá fazendo a residência dele na Itália. No dia do seu aniversário, ele bateu na telha de pegar um trem até a cidade de Modena e chegar na cara dura no famosíssimo restaurante Osteria Francescana.

Para quem não manja do assunto, Osteria Francescana é o restaurante do chef italiano Massimo Bottura.

Bottura é tipo o Cristiano Ronaldo da culinária, já recebeu o prêmio de “Melhor Chef do Mundo” e teve seu perfil retratado na série Chef’s Table do Netflix.

Quando você tiver um tempinho sobrando, acho que vale a pena ler o relato do encontro do Stéfano com o Bottura aqui: A arte de botar a cara: invadindo a cozinha do melhor restaurante do mundo.

Bom, hoje a parada é um pouco mais harcore.

O convidado do negócio chama-se Rafael Lavrado.

Por que eu trouxe ele aqui?

Continua rolando a página pra baixo que você vai entender.

 

 



Mestrado na Arábia Saudita

Por Rafael Lavrado

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A minha história começa no meio de 2008 quando estava no último ano de Engenharia Eletrônica na UFRJ.

No intervalo de uma aula, um amigo me mostra um folheto de uma palestra que ele tinha acabado de assistir.

Era sobre uma bolsa de mestrado em uma universidade que ainda nem existia.

Local: Arábia Saudita

Arábia Saudita?!??!

Assim como a maioria das pessoas, minhas únicas referências da Arábia eram: terrorismo, mulheres de burka e aquele gol da Copa de 94 em que o cara sai driblando todo mundo à la Maradona.

Minha primeira reação foi…

 “Você tá maluco!! O que vou fazer lá?? Deve ter algum esquema, nem existe essa faculdade ”

Na época, eu nem cogitava fazer mestrado acadêmico.  Queria ir logo para o mercado de trabalho.

Era estagiário em uma multinacional e já estava encaminhada a minha contratação.

Mas aquele meu amigo insistiu (graças a Deus!!!). Falou que eu devia me inscrever para ver o que ia dar!!

Preenchi o formulário com muita má vontade e enviei.

Eu era um dos melhores alunos da turma, o que compensou a má vontade no formulário!

Não me considero aqueles gênios que assistem a aula, entendem tudo e tiram notas altas sem precisar estudar.

Desde o início da faculdade, sempre fui muito dedicado preocupado em manter o CR alto.

Uns 2 meses depois, recebi um e-mail me chamando para uma entrevista em São Paulo.

Não estava nem animado para ir, mas eles falavam que pagariam a minha passagem

E o principal… davam uma ajuda de custo de 200 reais!!

Você se vendeu por 200 reais???

Só lembrando: eu era estagiário e ganhava uns R$1000 por mês.

É sério que os caras vão me dar 20% do meu salário só fazer um bate e volta em SP?? Tô dentro!!

Por sorte, ainda estava levando tudo na brincadeira e nem senti a pressão da entrevista.

Sorte mesmo, pois o entrevistador era aquele estereótipo de árabe executivo de filmes.

Falava devagar com pausas, muito sério e olhando fundo nos seus olhos.

Mas como eu estava tranquilo, fui super bem na entrevista.

Um mês depois, recebo um novo e-mail.

 

 

 



Um pit-stop no México

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Tinha passado! E agora a última fase seria na Cidade do México.

Ainda nem cogitava a possibilidade de estudar na Arábia Saudita.

Mas pensei: Passar um final de semana de graça no México?  Partiu!!

E fui com aquele amigo de turma, que também tinha passado na pré-seleção.

Chegamos na sexta no final da tarde e um motorista com um carro blindado já estava a nossa espera no aeroporto.

Ele nos levou para um hotel 5 estrelas, o W Hotel. Por sinal, esse aí foi o hotel mais irado que já fiquei na vida. Dá uma olhada nele

Lá estavam os outros alunos da América Latina. A maioria vinha do próprio México, tinha uns 8 malucos brasileiros, e alguns chilenos e colombianos.

Graças a Deus nenhum argentino!

Mal chegamos e já partimos para o networking em um bar regado a muita tequila!

O comentário geral era:

“Vamos aproveitar agora, que lá na Arábia não vai ter álcool”

Como assim?!!?!! Não vai ter álcool?!?!

 

 



Partiu Arábia Saudita

 

Estava tão desligado que ainda nem tinha pesquisado sobre o país.

Lá é onde fica Meca.

Você já deve ter ouvido este nome: é virado para lá que todo muçulmano tem que rezar.

A Arábia Saudita é o berço do Islamismo e Meca é considerada a cidade mais sagrada no mundo para os muçulmanos.

Lá eles ainda mantêm uma interpretação altamente conservadora das leis islâmicas (sharia).

Segura aí umas “Leis” bizarras que aprendi no bar:

 

1 – Bebida alcóolica e carne de porco não podem entrar no país;

 

2 – Mulher não pode dirigir;

 

3 – Cinema é proibido;

 

4 – Igreja é proibida e distribuir Bíblia dá pena de morte

 

5 – Certos crimes são punidos com chibatadas

 

6 – Pena de morte é decapitação em praça pública.

 

Se a minha chance de ir já era pequena, após descobrir isso tudo despencou mais ainda!!!

No dia seguinte, depois de apenas umas 3 horas de sono e muita ressaca, fui para o evento oficial de apresentação da universidade.

Nesse dia o jogo começou a virar!!

 

 

 



A universidade KAUST

Pela manhã, houve umas dinâmicas de grupo de apresentação dos alunos, um almoço muito bom e, à tarde, começou a apresentação com os representantes da universidade.

Eles exibiram um vídeo de apresentação do projeto incrível.

Tudo com aquela voz de trailer de filme americano narrando e uma musiquinha emocionante ao fundo.

Os árabes souberam vender muito bem o projeto!!!

Agora sim posso explicar do que se tratava o projeto. Afinal, estou contando a história em ordem cronológica…

A Arábia Saudita é um país muito rico, um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

Mas toda a economia gira em torno disso.

Se um dia o petróleo acabar, ferrou! Acabou o país!!

Então, o rei da época, Rei Abdullah, teve a ideia de começar a investir em tecnologia para ajudar o desenvolvimento e diminuir essa dependência do Petróleo.

Daí veio o nome da Universidade, KAUST- King Abdullah University of Science and Technology

Além disso, ele tentava começar lentamente o processo de abertura do país.

Para você ter uma ideia, não existe turismo lá. Conseguir um visto para visitar a Arábia Saudita é praticamente impossível.

Então, quase não se vê estrangeiros ocidentais por lá, só o pessoal que está a trabalho.

Como dinheiro nunca foi problema para os árabes ( e o barril de petróleo estava a mais 100 USD!!), eles estavam investindo uns 20 bilhões de dólares só na construção da faculdade!

Isso mesmo, 20 bilhões de dólares!

O projeto era ousado!

Em 20 anos, eles queriam se tornar uma referência mundial, no nível do MIT, CalTech, Stanford, etc…

A KAUST ofereceria somente turmas de mestrado e doutorado e, como o nome diz, focadas em cursos de ciência e tecnologia.

Para isso, eles construíram do zero uma cidade universitária no meio do deserto!

O local escolhido foi um vilarejo de pescadores chamado Thuwal às margens do Mar Vermelho… aquele mesmo que Moisés abriu na novela da Record.

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A KAUST fica bem no meio do nada mesmo.

O campus está a cerca de uma hora do aeroporto de Jeddah, a cidade “menos conservadora” da Arábia Saudita.

Por causa desse isolamento, seria uma minicidade com várias opções de entretenimento: mercados, lojas, cinema (mesmo proibido no país), praia, marina, esportes, restaurantes, campo de golfe… estilo Dubai mesmo.

Imagina o custo de se manter um campo de golfe irrigado no calor da Arábia??

Só depois descobri que o objetivo do campo de golfe era atrair professores americanos que gostam do esporte.

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Segura essa aí: os árabes gastavam 500 Mil dólares por mês para manter esse campo de golfe.

Eles também prometiam que lá seria um ambiente internacional e nem todas as regras do país seriam aplicadas.

Esta notícia era bem importante para as poucas mulheres que estavam pensando em ir.

Lá nesse microcosmo, elas poderiam dirigir e se vestirem normalmente (mas sem exageros né!).

Mas em relação à algumas regras, não teria jeito!

Ou seja, NO ALCOHOL” !!!

Na parte acadêmica, eles planejavam selecionar alunos e professores das melhores universidades do mundo. (Que honra!!)

Já tinham acertado com professores do MIT, Cornell, UC Berkeley…etc.

Eles, além do belo salário, foram atraídos pelos projetos de laboratórios de primeiro mundo.

Os projetos das salas e laboratórios eram incríveis, nunca tinha visto nada parecido!

Entre eles, estava a construção do supercomputador “Shaheen”, que atualmente é o computador mais rápido do Oriente Médio e um dos mais rápidos do mundo.

O primeiro reitor da KAUST já estava escolhido.

Era um asiático chamado Choon Fong Shih.

Shih fez um trabalho similar de desenvolvimento muito bom na National University of Singapore e foi contratado a peso de ouro pelos sauditas.

Durante a apresentação, já começou o pensamento…

“Caralho, uma oportunidade dessa só vai aparecer uma vez na vida!!”

As chances de ir começaram a subir e passei a ficar bem dividido.

A verdade é que eu já estava me arrependendo de não ter levado o processo seletivo mais a sério.

Mas de repente, começou uma cerimônia de premiação, e foram chamando um a um, com a notícia de que eles haviam sido selecionados. Até chamarem meu nome!!

Fui selecionado!!

Ganhei o “Graduate Fellowship Award” para integrar a primeira turma da KAUST.

Apesar de tudo que foi apresentado, ainda assim não é fácil convencer as pessoas a irem para Arábia Saudita, estudar em uma universidade que ainda nem existia.

 

 

 



BENEFÍCIOS INACREDITÁVEIS

Ainda faltavam 11 meses para a abertura da KAUST.

E eles ofereceram alguns “mimos” para convencer a primeira turma a aceitar o desafio.

Durante o período de espera, eu ganharia uma ajuda de custo de 1200 dólares por mês até me formar na UFRJ.

Fora isso, ainda tinha uma “ajuda” de 6.000 dólares para comprar livros e laptop (como sou pão duro, só gastei 500 e guardei o resto).

Convertendo para o câmbio da época, era uns 40 mil reais.

Eu poderia ir e ficar um mês e voltar sem precisar devolver nada.

Cara, isso é muito dinheiro para um estagiário!!

Fora isso, quando chegasse lá iria receber um apartamento, uma “mesada” de 1.700 dólares, plano de saúde e mais duas passagens para o Brasil por ano.

Isso tudo para estudar e ganhar um diploma de mestrado!!

Parecia irrecusável!!

Eu nem consegui dormir no voo de volta, só pensando na decisão.

Mas para mim, aquela aventura ainda tinha alguns poréns…

Não tinha a mínima intenção de fazer mestrado, iria largar meu emprego garantido e estaria indo para algo incerto.

Não tinha ninguém para perguntar como era a faculdade e como era viver na Arábia Saudita.

Para a primeira dúvida não tinha jeito, pois seriámos a primeira turma.

Procurando material para escrever esse post achei essa conversa de novembro de 2008 que exemplifica bem como estava minha cabeça.

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Era tudo perfeito, mas como falei no chat “O problema é que era na Arábia”.

Mas para solucionar essa desconfiança, em janeiro de 2009, eles convidaram todos os alunos selecionados para passar uma semana na Arábia Saudita.

Éramos em torno de 400 alunos de mais de 60 nacionalidades.

 

 

 

 



NÃO É TÃO RUIM QUANTO PARECE !!

Pousamos na Arábia Saudita pela primeira vez.

No aeroporto já deu para sentir que a KAUST tinha moral por lá!

Tinha uma fila especial da imigração só para os alunos e funcionários.

Ficamos uma semana hospedados em um hotel 5 estrelas em Jeddah .

Era um evento em que houve várias dinâmicas de integração no auditório.

E também tinha uns passeios para conhecer a cultura árabe e a cidade de Jeddah, com direito a rolé de camelo e tudo!

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Conclusão após uma semana lá:  A Arábia Saudita não é tão ruim quanto parece!!!

Vi muita gente que foi morar em Dubai se decepcionando.

Vão cheio de expectativas, mas se decepcionam quando percebem que Dubai não é Las Vegas.

Na Arábia Saudita era o contrário, a barra de expectativa estava lá em baixo.

Vi que nem todo mulçumano é aquele maluco que a gente vê na TV.

No geral, eles são bem gente boa e extremamente hospitaleiros.  E também são apaixonados por futebol igual a gente!

Muitos de classe média alta, já moraram nos EUA ou Europa. Então, conhecem bem a cultura ocidental.

A cidade de Jeddah é bem desenvolvida, com prédios bonitos, excelentes shopping centers e várias opções de restaurantes.

Além disso, ela fica à beira mar e não no deserto.

É claro que iria sentir falta de festas e bares, mas ainda teria algumas distrações fora da faculdade.

Jeddah também é a “menos pior” em relação a conservadorismo. A polícia religiosa não age muito por lá.

Polícia religiosa??!?

É uma polícia para fazer valer as leis islâmicas.

Ela pode, por exemplo, exigir um certificado de casamento de um casal jantando em um restaurante ou “pedir” para uma mulher se cobrir mais.

Ela age mais frequentemente na capital, Riad.

E por último e mais importante, vi que dava para me sentir seguro lá.

O índice de criminalidade é praticamente zero.

Seguro?? E o terrorismo???

Assusta um pouco pensar que a maioria dos terroristas do 11 de Setembro vieram de lá.

E que foi justamente ali onde Osama Bin Laden nasceu. Tive até um professor que já havia dado aula para ele na faculdade.

Mundo pequeno!

Aliás, a família do Bin Laden é uma família tradicional e ultra milionária da Arábia Saudita.

Para você ter uma ideia, a construtora da família, Saudi Binladin Group, foi quem construiu a universidade KAUST.

Mas descobri que o programa antiterrorismo da Arábia Saudita foi muito bem-sucedido.

Os atentados lá são cada vez menos frequentes e mortais. Não é um Iraque em que toda hora pula notícia de um atentado que matou 100 pessoas.

A chance era bem maior de sofrer alguma coisa na Linha Vermelha indo para o Fundão do que lá!

 

 

 



ARÁBIA SAUDITA? O QUE VOCÊ VAI FAZER LÁ?

 É claro que por mais que tenha me surpreendido positivamente, a cultura ainda era totalmente diferente da nossa.

Mas voltei pro Brasil com a certeza de que valeria a pena a experiência.

Decisão tomada!

Passei 6 meses antes de ir respondendo à pergunta:

“Arábia Saudita? O que você vai fazer nesse país?

Também começou no processo do visto.

Nunca vi um visto tão complicado: ficha criminal, exame médico, exame de sangue…

A sorte foi que, como os alunos da KAUST eram “protegidos” do rei, a embaixada facilitou bastante a burocracia.

A mulher da embaixada falou que nem quando o Presidente Lula quando foi lá teve o processo tão facilitado!

Malas prontas e parti para aventura.

Cheguei no meio de agosto de 2009, duas semanas antes das aulas.

Era fim do verão! 48 graus no couro! Diferente de janeiro, quando estava uma temperatura agradável.

A faculdade ainda não estava pronta! Atraso no estilo Olimpíadas!!

A solução dos caras foi bem simples: põe todo mundo em mais um hotel 5 estrelas!

Também era início do Ramadan. Mês sagrado dos muçulmanos.

Durante esse mês, eles não podem comer ou beber absolutamente nada (nem água) durante a luz do dia.

Pô… eles devem emagrecer bastante nesse mês?

Não!!!! Todo dia tem um banquete gigante chamado Iftar quando o sol se põe! Então eles comem para caramba!

Nós, não muçulmanos, comíamos escondido durante o dia.

É sacanagem comer na frente de alguém que está morrendo de fome, né!?

É claro que ainda pegamos o Iftar depois do pôr-do-sol!

Passadas as duas semanas de ambientação e muita comida no hotel, partimos para a faculdade.

 

 

 


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COMEÇO DAS AULAS

A primeira impressão nem foi tão boa.

Não parecia aquela apresentação de Power Point que nos mostraram no México!

E muito menos como ela está hoje em dia, se liga nesse vídeo.

A KAUST era um canteiro de obra! Estava tudo atrasado e tivemos que começar mesmo assim.

É o preço que se paga por ser da primeira turma!!

Mas para compensar esse “inconveniente”… eles nos deram 1 mês de comida de graça!!!

Inacreditável! Se quisesse, poderia ir no Burger King, pedir 10 hambúrgueres e colocar “na conta do Rei”.

Outro ponto que surpreendeu foi o “alojamento” dos estudantes.

Eles deram para cada aluno um apartamento de uns 110m2, 3 andares e todo mobiliado!!

O meu apê ainda tinha vista para o mar!

Quando abri a porta a reação foi: Tá de sacanagem?? Isso tudo só para mim!!

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ÁRABES OSTENTAÇÃO

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Após uma espetacular cerimônia de abertura, com direito a presença do ilustre King Abdullah, começaram as aulas…

Fiquei muito impressionado com a estrutura lá. Salas de aula e auditórios de primeira linha, não perdem em nada para as melhores faculdades dos EUA.

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Tudo era muito grandioso. Os árabes adoram ostentar!!

Esse farol azul aí embaixo, o Beacon, é um dos símbolos da KAUST. Representa o Farol do Conhecimento.

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Os professores eram muito bons, tive aula com caras que já tinham lecionado em universidades top no mundo.

 

 

 


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INSHALÁ

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Tudo lá era em inglês! O objetivo da KAUST é ser uma faculdade internacional.

Árabe é muito difícil, eu só aprendi umas 100 palavras básicas para me virar.

Inclusive aprendi também como os árabes usam a palavra inshalá (aquela mesmo da novela “O Clone”).

Odiava essa palavra!

Inshalá significa algo como “se deus quiser”. Mas Deus nunca queria quando eles usavam.

Era do tipo: “Seu visto vai ficar pronto até sexta”.

Você sai tranquilo da sala e aí o cara mandava um “Inshalá”.

Aí ferrou, já sabia que iria atrasar.

Escolhi fazer mestrado em Engenharia Elétrica.

E, sinceramente, sempre fui puxando o caminho mais fácil para me formar.

Estava lá muito mais pela experiência multicultural do que pelo mestrado em si.

A verdade é que eu não queria trabalhar com engenharia após o curso.

Mas mesmo assim, não foi moleza! Eles não iriam dar tudo isso e não cobrar nada dos alunos!!

Tive que ralar muito para me formar.

Então, eram umas 10 horas de aula por semana, e muito tempo de estudo na biblioteca.

 

 

 


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EXPERIÊNCIA MULTICULTURAL

Mas o que valeu a pena foi a experiência multicultural de estudar e conhecer gente do mundo todo!

Isso não tem preço!

Por exemplo, fiz um trabalho em grupo de estatística com um mexicano, um iemenita (Iêmen é um país ali do lado), um sudanês, um filipino, uma americana, um irlandês e uma chinesa.

Foi muito interessante conhecer um pouquinho da cultura e de como trabalham essas nacionalidades todas!

Fui para lá com um certo receio de que não iria conseguir acompanhar o nível da turma.

Com aquele complexo de vira-lata de que tudo no Brasil é pior, sabe?

E vi que as universidades boas do Brasil, em ensino, não perdem em nada para qualquer universidade do mundo!!

Acompanhava as aulas de igual para igual com os caras que vieram de Berkeley ou Cornell.

Ahh, esqueci de comentar que a universidade era mista.

Mas o que que tem demais nisso?

A KAUST foi a primeira e única instituição de ensino mista na Arábia Saudita.

Desde o jardim de infância, meninos e meninas estudam separados. Existem também faculdades para homens e outras faculdades para mulheres.

Tinha cara que estava tendo o primeiro contato com mulher na vida!!

E vários tiverem seus primeiros amores platônicos pelas estrangeiras lá. Rolou até pedido de casamento!!

Então, esse fato “revolucionário” gerou uma certa revolta nos muçulmanos mais radicais da Arábia.

A KAUST chegou a sofrer algumas ameaças.

Mas estávamos tranquilos. A segurança para entrar na cidade universitária era muito grande.

Ela era toda cercada e precisava passar por uns 3 check points de segurança fortemente armada até entrar.

 

 



DIVERSÃO DAS ARÁBIAS

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Fora o estudo, também dava para se divertir por lá.

Aos poucos, a universidade foi se ajeitando e lançando várias opções de entretenimento.

Ela era muito preocupada em entreter os alunos.

Fornecia ônibus de hora em hora para ir para Jeddah, a cidade grande mais perto.

Eles também organizavam diversas atividades: campeonatos de esporte, cursos de mergulho no Mar Vermelho,  shows, excursões e festas.

E a estrutura de esporte era muito boa: vários campos de futebol, tênis, piscinas, ginásios, academia, wind surf…

Jogava bola umas 3-4 vezes por semana. E meu time, SAMBA, ganhava tudo!!

Boa parte do tempo livre, passava com os outros 5 brasileiros da primeira turma.

A gente acabarou virando tipo uma família lá.

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Churrascos, idas à praia particular dentro da universidade, cafés, restaurantes, boliche, cinema…

E, mesmo sem álcool, de vez em quando rolava umas “house parties” regadas a Red Bull e Budweiser sem álcool na casa dos alunos.

Logo, mesmo estando na Arábia Saudita, dava para ter uma vida relativamente normal dentro da faculdade.

Mas é claro, ainda estávamos na Arábia Saudita!

O cinema exemplifica como tudo por lá era internacional, mas com pequenas adaptações à cultura conservadora local.

Cinema na Arábia é proibido.

Sabe por quê?

Porque eles não querem nada que possa provocar interação social entre homem e mulher.

Na faculdade tinha duas salas grandes, estilo daquelas de shopping mesmo.

Mas os filmes eram censurados!

Qualquer simples cena de beijo era cortada!

Lembro que teve uma comédia romântica que perdeu o sentido com tanto corte!!

 

 



VIAGENS, VIAGENS e MAIS VIAGENS!!

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O custo de vida lá na KAUST era bem baixo.

Só de não ter bar e noitadas já era uma economia enorme no mês!

O maior gasto era com alimentação. O “bandejão” da KAUST custava só uns 2 dólares!!!

Por mês, gastava uns 300-400 dólares.

Então, sobrava em torno 1300 dólares todo mês!!

O que eu fazia com essa grana?

Torrei tudo viajando!!

Falar de todas as viagens já seria assunto para um livro.

Então, resumindo…

A Arábia Saudita está localizada literalmente no centro do mundo.

Então, era muito rápido e relativamente barato viajar para qualquer lugar do mundo.

Fomos para países exóticos mas “populares” como: Tailândia, Cingapura, Indonésia, Índia, Emirados Árabes, Turquia e Egito.

Mas graças a FlyNas, uma espécie de Ryanair da Arábia, fizemos viagens curtas para países que praticamente ninguém pegaria um avião do Brasil para ir.                                                    

Lugares como Jordânia, Líbano, Chipre, Bahrain, Qatar e Síria entraram na lista também. 

Estávamos em 2010. Era a Síria antes do Estado Islâmico.

Lá, conhecemos um primo de um amigo da faculdade.

Ele era de uma família de classe média alta, com carros bons, inglês fluente, morava bem e frequentava bons restaurantes.

Além disso, a Síria era bem mais aberta que a Arábia.

Um exemplo? Álcool não era proibido.

Fizemos até uma noitada em um hotel lá!!

Hoje, quando vejo sobre a Síria na TV, fico imaginando como esse povo está sofrendo com tanta pobreza e violência.

Olha eu aí na Síria… antes e depois do Estado Islâmico.

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Então, é muito triste ver os lugares em que fomos com pessoas parecidas com a gente totalmente destruídos pelo Estado Islâmico.

O fato é que todas essas viagens mais que compensam o fato de estar morando em país ultraconservador.

Quando começava algum tédio da rotina de lá sempre vinha uma viagem foda para dar uma relaxada.

Além disso, contribuiu bem para meu sonho de conhecer 100 países (Estou em 64 ainda).

 

 


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CHEGANDO AO FIM

Outra coisa legal do mestrado foi a oportunidade de fazer estágio nas férias.

No verão, tem umas férias grandes de uns 3 meses e meio.

Além de escapar do calor infernal da Arábia, os alunos são incentivados a fazer estágio em uma empresa ou em uma faculdade de qualquer lugar do mundo.

A KAUST tem vários convênios e parcerias, o que facilita bastante o processo.

Além de ajudar em toda a burocracia de visto e etc.

No meu caso, fiz um estágio na IBM em Nova York!

Mesmo sendo uma experiência curta, um estágio em uma grande empresa em Nova York sempre agrega muito ao currículo.

Voltei do estágio de verão e cursei meu último semestre lá.

E uma mega cerimônia de formatura fechou com chave de ouro o meu mestrado!!

 



CONCLUSÃO!

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O saldo foi extremamente positivo!!

Foi uma decisão difícil, “sair da caixa”, largar um emprego garantido, para embarcar em uma aventura na Arábia Saudita.

Ganhei o título de mestre em Engenharia Elétrica e um diploma maneiríssimo!!!

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Mas o que valeu a pena mesmo foi toda a bagagem cultural que vou carregar para sempre!

Além de amigos ao redor do mundo!

Não trocaria meu diploma por nenhuma “Harvard” da vida.

Com muito orgulho, fiz parte da história de uma universidade da dimensão do que a KAUST representa e ainda vai representar.

Em 2013, ela ganhou o prêmio como a universidade que mais cresce em termo de citação em artigos acadêmicos!

Meu nome vai ficar escrito para sempre na parede na universidade com membro da “Founding Class”.

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Se alguém tiver interesse, dá para fazer o application online nesse link: https://www.kaust.edu.sa/en/study/applying-to-kaust

Para os que querem seguir a área acadêmica, sem dúvida, é um dos melhores lugares do mundo para fazer pesquisa!

Para os que não querem, como era meu caso, ainda sim vale muito a pena!!

Ter uma experiência dessa, no mínimo vai chamar atenção para seu currículo no meio de milhões de candidatos.

Voltei para o Brasil no Natal de 2010 e, em janeiro de 2011, já fui contratado por um fundo de investimento no Rio de Janeiro.

Estou lá até hoje e já virei sócio pouco tempo depois de ter entrado.

Com certeza bem melhor que o emprego na multinacional que estava com medo de deixar para trás!!

Quaisquer dúvidas ou curiosidades fiquem à vontade para entrar em contato: rafael.lavrado@kaust.edu.sa

Abraços!

~Rafael Lavrado

 


 

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