Mundo Raiam
Mercado Financeiro

Zelotes, Lula e Lulinha: o business do futebol americano

30/11/2015
futebol americano

 

Como muitos de vocês sabem, fui jogador de futebol americano durante 10 anos da minha vida.

Comecei meio que por acidente nas categorias de base do San Diego Cavers com 15 anos e, aos 17, cavei uma vaga no Pennsylvania Quakers da primeira divisão da NCAA americana.

futebol americano raiam santos

É verdade que a bolsa de estudos que recebi para a Wharton Business School foi por causa do meu desempenho dentro de sala.

Apesar do meu estilo fanfarrão, sempre fui muito nerd e não tirei uma nota abaixo de 9.0 durante todo o ensino médio.

Mas eu seria hipócrita se negasse que o futebol americano foi um dos principais fatores que me fizeram chegar lá.

Por essas e outras, serei eternamente grato pelo esporte.

Querendo ou não, ele me fez morar nos Estados Unidos por quase 10 anos e me deu basicamente tudo o que eu tenho hoje.


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Tem futebol americano no Brasil?

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Essa foi a mesma pergunta que eu me fiz há alguns anos atrás quando me disseram que o esporte estava crescendo muito por aqui.

Fiquei sabendo de uma liga chamada Torneio Touchdown com times amadores do Rio Grande do Sul até a Bahia.

Minha grande surpresa foi ver a presença de times tradicionais do futebol da bola redonda como Santos, Flamengo, Botafogo, Vasco, Coritiba e Corinthians.

A galera que jogava nesses times era tão apaixonada pelo esporte que pagava para jogar!

Para jogar futebol americano, você precisa de capacete, shoulder pads, calças, protetor bucal, proteções de joelho, quadril e coxa, além de uma chuteira especial de cano alto.

Quer bancar essa armadura completa? Prepare-se para pagar, em média, US$1mil.

Além de bancar o equipamento, o atleta tinha que pagar as viagens do próprio bolso.

Com times em cidades longínquas como Porto Alegre, Campo Grande e Salvador, pode acreditar que essas viagens não eram baratas.

Na época, um dos meus sonhos de vida era ser o embaixador do esporte no Brasil.

Fiz questão de falar isso numa entrevista que eu dei para o jornal Daily Pennsylvanian em 2008.

Sonho estranho, né?

Era uma forma que eu encontrei para retribuir tudo o que o futebol americano proporcionou para mim.

Tinha guardado uma grana boa em dólar e resolvi abrir mão de algumas coisas para “viver de futebol americano”

No fim de 2013, resolvi tirar um ano sabático e me dedicar a esse sonho do futebol americano através de dois mecanismos: sendo jogador e sendo apresentador/comentarista de TV.

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Joguei o Torneio Touchdown de 2014 pelo Flamengo Futebol Americano por 2 motivos:

1) eu sempre tive o sonho de vestir o manto-rubro negro e representar o Mengão em um esporte competitivo

2) era titular da Seleção Brasileira e precisava me preparar para a Copa do Mundo de Futebol Americano de 2015.

 

 

 



O rei do futebol americano

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Ontem, caí na gargalhada quando li a notícia de que a consultoria do filho do Lula cobrava R$2,5 milhões para entregar projetos de copy e paste diretamente do Wikipedia.

De acordo com os investigadores da Operação Zelotes, “os estudos apresentados pareciam ser de rasa profundidade e complexidade, em total falta de sintonia com os milionários valores pagos”. 

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Lembrei dos meus tempos de atleta do Torneio Touchdown.

Quem mandava e desmandava dentro do torneio era exatamente o tal Mr. Wikipédia Luís Claúdio Lula da Silva.

As pessoas tocavam no nome dele como se ele fosse o Oráculo do Matrix ou o Lord Voldemort do Harry Potter.

Apesar de ser fã do presidente Lula durante quase todo tempo que eu passei nos Estados Unidos (!) , sempre achei a ascensão profissional de seu filho Luiz Cláudio um pouco duvidosa.

Recalque? Pode até ser… eu queria ser embaixador do esporte no Brasil e ele estava à frente do principal torneio.

Mas pensa comigo.

Do dia para noite, o cara foi de estagiário de educação física nas categorias de base do Corinthians para empresário multimilionário da poderosíssima Touchdown Promoções e Eventos.

Tenho plena certeza de que todo mundo que joga o tal do Torneio Touchdown sabe das tretas que rolam por detrás dos panos.

Mas ninguém fala nada.

Eu era um desses hipócritas aí.

Primeiro porque eu estava com medo de amanhecer “com a boca cheia de formiga”.

Segundo porque estava com o meu na reta: se não tivesse Torneio Touchdown, não teria futebol americano e eu não jogaria na Seleção.

Mas Raiam, que tretas você falou ali em cima?

Vou tirar uns minutinhos para analisar o tal Torneio Touchdown do ponto de vista do business.

 


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Planejamento estratégico furado

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Durante os dois anos que trabalhei lá em Nova York, ganhei a vida analisando empresas listas nas bolsa de valores dos EUA, México, Chile e Brasil.

Tinha que olhar fluxo de caixa, competidores, fornecedores, clientes, estratégias de marketing, equipes de gestão, exposição ao câmbio, exposição a taxas de juros, formato de remuneração de executivos e uma penca de outros indicadores.

Raio X total! Apesar de lidar muito com números, banco de investimento é um business de relacionamento e, acima de tudo, de informação.

Se eu deixasse alguma coisa passar, meus chefes me davam um créu e comiam meu bônus no fim do ano.

À medida que o tempo passava e eu ia entendendo o modelo de negócios do Torneio Touchdown, menos sentido ele fazia.

Vamos fazer uma continhas básicas porque sem matemática o mundo não vai para frente.

Bolsa-equipe

Os 20 times do Torneio Touchdown recebiam uma ajuda de custo da organização do evento.

Como eu falei ali em cima, os jogadores pagam tudo do próprio bolso. No ano de 2013, o torneio resolveu dar uma graninha para os times para aliviar a conta bancária dos atletas.

Se tinha 20 times no Torneio Touchdown e cada time recebia uma bolsa de 20mil reais por temporada, já coloca aí um investimento mínimo de R$400mil reais.

Logística

Fora a bolsa que cada time recebia, a organização do Torneio Touchdown pagava uma galera para tocar a parte logística dos jogos: colocar as placas de patrocínio, montar as traves e preparar a estrutura do estádio.

Vamos supor que essa brincadeira aí custava uns 5mil por jogo.

R$5mil por jogo * 50 jogos = R$ 250mil reais

Capital humano

Mais gastos? Mas Raiam, os jogadores não eram “free labor”?

Sim, mas tem que ter juiz né?

Você vai ficar surpreso com a quantidade de árbitros num jogo de futebol americano.

São 7! Referee, umpire, head linesman, line judge, back judge, field judge e side judge.

O Torneio Touchdown pagava cachê, passagem de avião e estadia de todos os 7 juízes que apitavam os jogos.

Vale lembrar que a maioria dos árbitros de futebol americano mora no eixo Rio-São Paulo e viajava de avião para os jogos.

Não sei quanto essa galera ganhava por jogo mas dá para criar um cenário de custos aqui:

Vamos supor que cada juiz ganha R$200 de cachê.

A passagem média dele custa R$250 e o pernoite R$100.

Coloca mais R$100 da grana do translado e da alimentação dos caras.

200 + 250 +100 + 100 = R$650 por juiz.

Se cada jogo tem 7 juízes…

R$650 * 7 = R$4.550

Agora multiplica essa grana pelos 50 jogos do torneio:

R$4.550 * 50 = R$227.500 com capital humano.

A Grande Final

Fui para Jaraguá do Sul para assistir o “Super Bowl brasileiro” entre o Jaraguá Breakers e o Flamengo.

Tinha telão, palco, narrador, holofotes, uns 40 empregados… além das dezenas de outdoors promovendo o jogo pelas cidades do norte catarinense.

Coloca aí mais uns R$70mil reais, no mínimo, só para bancar estrutura daquele jogo.

Custo Total = 947mil por temporada

Bolsa-time: 400mil
Logística: 250mil
Capital humano: 227mil
Final: 70mil

 


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Matei os custos… mas e o faturamento?

Bom, simulamos uma estrutura de custo de 947mil reais por temporada.

Para o negócio fazer sentido, tem que ter pelo menos 947.001 de faturamento, certo?

Mas como funciona o faturamento do Torneio Touchdown?

Não sei.

Sério que eu não sei.

Coloca um público médio de 200 pessoas pagando 10 reais para entrar e você recebe R$2.000.

Vale lembrar que muitos dos jogos são grátis para atrair o público.

Só que essa grana da bilheteria vai para o time e não para a Touchdown Promoções e Eventos.

E o time usa essa grana para pagar o aluguel do campo, a tinta para pintar o gramado e o aluguel do ônibus para o próximo jogo.

Como é que a Touchdown Participações e Eventos vai arrumar 927mil/ano para ficar no zero-a-zero?

De algum jeito ela arruma!

Se não arrumasse, ela não sobreviveria desde 2011!


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Calma, tem patrocinadores!

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Ué, Raiam? Não foi você que viveu 10 anos anos Estados Unidos?

Como é que a NFL e a NBA sobrevivem? Patrocínios e cotas de TV, né?

Tem uma diferença brutal entre os comps americanos e o futebol da bola oval no Brasil: o público. 

Lembro de um Flamengo x Vasco no futebol americano que tinha tudo para ser o maior jogo da história do esporte nacional.

Era um sábado ensolarado de outubro e não tinha jogo no Maracanã nem em São Januário.

Público total? 800 pessoas.

Nos outros jogos que fui, se tinha 200 pessoas na arquibancada era muito.

200 pessoas pagando 10 reais para entrar não cobre nem o custo de aluguel do estádio.

É verdade que tem um ou outro jogo com mais de 1.000 pessoas no estádio.

Mas isso acontece uma vez por ano, geralmente em Cuiabá e Recife nas finais da SuperLiga, o torneio rival do Torneio Touchdown (sim, tem dois campeonatos brasileiros de futebol americano).

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Lembra que eu falei ali em cima que tinha um pessoal de logística responsável pela colocação de placas em todos os jogos do Torneio Touchdown?

Bom, essas eram as placas dos patrocinadores do torneio.

Se não me falha a memória, os patrocinadores do torneio eram a Budweiser (Ambev), TNT Energy Drink (Cervejaria Petrópolis), Gol Linhas Aéreas, Qualicorp e Tigre.

Só medalhão!

Das cinco empresas, três têm capital aberto na bolsa.

Aí faz sentido ter uma estrutura de custos tão alta para um esporte tão incipiente no Brasil, certo?

 

 


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Jogando dinheiro fora

Errado!

Aprendi nas aulas de marketing na faculdade que, antes de abrir a carteira e patrocinar um evento, você tem que fazer o cálculo de ROI (return on investment) para ver se aquela grana ali realmente vale a pena para sua marca.

A variável mais importante para esse cálculo é nada menos do que o número de pessoas que sua marca vai atingir com aquela campanha.

Se a média de público do torneio ronda os 200 espectadores e os jogos não passam na televisão, realmente não faz sentido abrir a carteira e patrocinar.

Mas tem aqueles benefícios fiscais do Ministério do Esporte né?

O futebol americano não tem uma federação registrada no Ministério do Esporte e, consequentemente, não conta para essas iniciativas de esporte olímpico.

 


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Quer uma prova de que não tem retorno?

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Em janeiro de 2014, a Seleção Brasileira de Futebol Americano tinha um jogo de vida ou morte pelas eliminatórias do Mundial IFAF de futebol americano.

O jogo era na Cidade do Panamá e estávamos correndo atrás de alguma empresa para bancar a viagem de 60 pessoas para lá (45 jogadores + 15 membros da delegação).

Faltando apenas uma semana para o jogo, recebi a notícia de que a federação não conseguiu nem um centavo de patrocínio.

Solução: bancar a passagem do próprio bolso.

Só que janeiro é alta temporada, certo?

Comprar passagem internacional, em alta temporada e de última hora… em um país onde tudo é dolarizado?

Juntando passagem, hotel, translado e alimentação, pode colocar aí uns 7mil reais de investimento.

Classificamos o Brasil para a Copa do Mundo, que seria realizada em Ohio no mês de julho.

O pensamento foi o seguinte: se fomos ao Panamá e vencemos aquele jogo em território hostil com transmissão ao vivo da ESPN (clique aqui para ver os melhores momentos), com certeza alguém vai acreditar na gente na hora de bancar a viagem para Ohio.

O próprio Esporte Espetacular da Globo fez uma matéria sobre a nossa correria assim que voltamos do Panamá.

À medida que a data da Copa ia chegando, o drama só aumentava.

Cadê o patrocínio?

O dólar subiu e ninguém queria botar a mão no fogo pelo futebol americano.

A federação escondeu o jogo até o último minuto.

Faltando alguns dias para o Mundial de Ohio, recebi a notícia de que mais uma vez teríamos que bancar tudo do próprio bolso.

Perdi a linha, toquei o terror com os cartolas da federação e acabei sendo cortado da Seleção por indisciplina.

A conclusão racional é a seguinte: o esporte é incipiente no Brasil e as empresas não teriam um retorno de marca que justificasse esse investimento.

Fiquei triste pelo Raiam-atleta… afinal, aquilo ali era a cereja do bolo da realização do meu sonho.

Mas pensando bem e com a cabeça totalmente fria, a explicação fez total sentido para o Raiam-businessman: os patrocinadores tinham razão – dinheiro não pode ser jogado fora!

 

 



Procura no Wikipedia

Se a Qualicorp, a Tigre, a Cervejaria Petrópolis, a GOL e a Ambev realmente acreditassem no potencial de mercado do futebol americano do Brasil, pingaria alguma coisa para ajudar a Seleção, certo?

Ué então por que elas fizeram questão de patrocinar o Torneio Touchdown com um ROI tão baixo durante 4 anos?

Acho que caíram no conto do vigário.

Dá uma olhada no artigo Defesa Chama de Descabidas Conclusões da PF Sobre Consultoria do Filho de Lula do Estado de São Paulo.

“Ao rebater a conclusão da PF sobre a consultoria da LFT Marketing Esportivo Ltda, o advogado Cristiano Zanin Martins afirma taxativamente. “O know-how da LFT e da Touchdown Promoções de Eventos Esportivos Ltda – outra empresa de Luís Cláudio – e a compatibilidade dos valores por estas movimentados no seu mercado setorial foi objeto de análise e parecer do professor Carlos Roberto Ferreira Ayres, da LA Consultores e professor de Finanças Empresariais e de Mercado Financeiro das Faculdades de Economia e Administração de Empresas da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP).”

Know-how é experiência de mercado, sabedoria, histórico de sucesso no setor! Mostra pra mim o track-record do cara?

Agora segura esse trecho aqui:

Ainda segundo o advogado do filho de Lula, do parecer ‘se extrai que, como pioneiras na promoção e patrocínio do Futebol Americano no Brasil, LFT e Touchdown têm potencial para a exploração de um mercado avaliado em US$ 20 bilhões em 2013, nos Estados Unidos, e de cerca de US$ 1,26 bilhão anuais no País, o que equivaleria a 30% apenas do potencial de patrocínio projetado para a América Central e do Sul, com base na estimativa da empresa norte-americana IEG LLC’.

Hoje em dia, qualquer 10mil reais compra espaço na camisa dos times pela temporada inteira

Quer enganar quem, jovem?

Ou os profissionais de marketing da Ambev, da Gol, da Petrópolis e da Qualicorp que bancam o Torneio Touchdown são ALTAMENTE INCOMPETENTES nos fundamentos do marketing ou tem alguma coisa cheirando a treta por aí.

Acho que é a segunda opção…

Esse é blog sempre foi um lugar descontraído e senti que esse post deixou o clima meio pesado aqui.

Vou deixar um samba de raiz de um cara que eu sou fã desde que eu tinha 4 anos de idade: o saudoso Mussum da Mangueira e os Originais do Samba!

Chora cavaco!

 


 

 

~Raiam

 


 

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