Mundo Raiam
Mercado Financeiro

A tragédia do jeitinho

01/12/2016
jeitinho

Estava para escrever um post inteiro sobre isso mas resolvi respeitar o luto do país.

Na terça-feira à noite, compartilhei o post da Mentalidade da Caixa Preta na fanpage e um monte de zé roela me comparou ao Catraca Livre dizendo que eu estava monetizando o clique em cima de tragédia.

Recebi vários comentários tipo:

“Apaga que dá tempo!”
“Oportunista!”
“Lamentável”

Tive vontade de retrucar mas me segurei. Segue o print:

caixapreta

Adivinha se eu segui os conselhos dos especialistas e apaguei o post?

 


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FAMÍLIA CAIXA PRETA

grantqa

Moro em outra cidade e só vejo meu pai uma vez por mês.

Hoje eu passei quase 2 horas no telefone com meu velho conversando sobre procedimentos básicos da aviação.

Meu pai foi piloto por 30 anos, voou pela Força Aérea, pela Varig, pela Jet Airways e até ganhou o Mérito Santos Dumont de Aviação porque salvou um Boeing 747 da Varig que estava prestes a cair entre a Rússia e o Japão lá no início dos anos 1990.

Hoje ele é diretor da ANAC e eu respiro aviação desde que eu me dou por gente.

Naquele post da Mentalidade da Caixa Preta, deixei bem claro que minha família leva muito a sério toda vez que acontece um acidente aéreo.

Meu pai não desgruda da TV, compra todos os jornais, passa horas no telefone conversando com especialistas e às vezes até participa das investigações.

Pra que isso tudo? Para que aquele erro nunca mais se repita com piloto nenhum!

Também fiz questão de frisar que a tal da mentalidade da caixa preta marcou muito minha evolução como ser humano desde pequeno.

Por causa da repercussão daquele post e dessa meia dúzia de ex-seguidores esquentadinhos, eu me segurei para não escrever nada hoje.

O poder do impulso falou mais alto!

Uma das maiores lições que aprendi na vida é que, quando vem um impulso, o melhor que o ser humano deve fazer é segui-lo.

Nunca me arrependi de ter seguido um impulso vindo do coração.

Coloquei o texto na fanpage do meu Facebook, o negócio viralizou em questão de minutos mas eu me senti que o que eu escrevi estava incompleto.

Agora transformei aquele “textão” da fanpage de 300 palavras em algo mais detalhado e elaborado de 2500.

 



HOMICÍDIO

É o seguinte: a tragédia da Chapecoense não foi uma fatalidade… FOI HOMICÍDIO CAUSADO POR EXCESSO DE JEITINHO.

Vou separar alguns tópicos para você pensar sozinho e tirar suas próprias conclusões:

 

1) POR QUE OS DIRETORES DA CHAPECOENSE NÃO CONTRATARAM A GOL , A TAM, A AVIANCA OU ATÉ A VIVA COLÔMBIA PARA FAZER O CHARTER?

Porque essas empresas aí cobrariam pelo menos 50% mais caro pelo mesmo serviço.

Ao invés de pagar as companhias tradicionais como todo time brasileiro faz e cobrir o trajeto Guarulhos-Medellín num vôo nonstop de pouco mais de 4 horinhas, os responsáveis pela logística da Chapecoense preferiram contratar uma companhia aérea mambembe na Bolívia.

Pô, cara. Conexão de vôo cansa pra caramba, né? Os jogadores precisam estar descansados para o jogo de quarta-feira.

Foda-se! Vamos passar 6 horas a mais “na estrada” mas vamos economizar algumas centenas de milhares de dólares.

Deixa quieto, contrata o boliviano e vai pelo caminho mais longo mesmo… afinal, a LaMia tá cobrando bem mais barato pelo charter, né?

Fora isso, A LaMia é confiável. A própria Seleção Argentina voou com eles.

Quem pagou aquele vôo que o Messi fez?

A Confederação Argentina de Futebol… que está numa crise econômica gravíssima e com certeza também queria economizar uma grana no charter.

 

2) POR QUE DRIBLARAM AS REGRAS DA ANAC?

Vi umas notícias colocando a culpa na ANAC e comprei a briga dos caras.

E olha que eu odeio a ANAC. Afinal, meu pai trocou o cockpit de um Boeing 737 por um emprego de funcionário público, né?

Os caras contrataram um avião de uma empresa boliviana/venezuelana e ainda tentaram dar um “jeitinho” de fazer aquele avião decolar de São Paulo.

Porque a ANAC não deixou aquele avião decolar em solo brasileiro?

Não pode, jovem.

E não é uma lei brasileira daquelas difíceis de interpretar. Isso é uma convenção internacional!

Depois pesquisa sobre “fifth and sixth freedoms” na aviação e também sobre o Bermuda Agreement.

Já parou para pensar porque a American Airlines não faz vôos entre o Brasil e a França?

Já parou para pensar porque a Aerolineas Argentinas não faz vôos entre o Brasil e a África do Sul?

Não tem jeitinho… nem se você ligar para o prefeito de Chapecó pedindo para liberar uns rolos.

 

 

3) POR QUE UTILIZAR UM AVIÃO DA BRITISH AVIATION SE NENHUMA DAS TOP100 EMPRESAS AÉREAS DO MUNDO USA ESSE FABRICANTE NOS SEUS FLEET PLANS?

Agora é que são elas.

O avião que caiu era do modelo Avro da empresa British Aviation.

Eu estou envolvido com aviação desde que eu nasci e ainda trabalhei 2 anos no Citi de Nova York como analista de companhias aéreas e fabricantes de aviões.

Nunca tinha ouvido falar nos jatos regionais dessa tal de British Aviation. Será que eu estava tão mal informado assim?

Para mim, jato regional é Bombardier ou Embraer. Ponto final!

Daí fui pesquisar o fleet plan das principais companhias aéreas do mundo.

Para você que não está por dentro de aviação, fleet plan é basicamente o portfolio de aviões que cada companhia tem.

Separei aqui os fleet plans da LATAM, da GOL, da American Airlines, da Etihad e da Emirates.

Engraçado, né? LATAM, Etihad e Emirates só têm aviões da Boeing e da Airbus.

A GOL só tem Boeing 737 e a American Airlines tem até uns gato pingados produzidos pela Embraer.

Daí fui fuçar mais e mais.

Passei uma hora pesquisando fleet plans ao redor do mundo e não encontrei nenhum avião da British Aviation em atividade nas principais companhiar aéreas.

Wow! Por que será?

Entre as grandes, só encontrei modelos BAE Avro numa subsidiária minúscula da Air France chamada Cityjet.

Achei estranho e pesquisei ainda mais.

Opa! Dias contados!

Todas as 19 aeronaves BAE Avro no fleet plan da Cityjet estão para ser aposentadas no ano de 2019, quando a empresa receber novos jatos regionais da Sukhoi.

Entendeu aonde eu quero chegar?

Se ninguém usa mais, é porque o negócio é uma merda.

Os aviões da BAE saíram de linha porque bebem muito mais do que os Embraers e Bombardiers. É por isso que ninguém mais usa eles.

Se o boliviano usa um BAE, significa que o custo operacional dele já vai ser mais alto do que o normal. Segura esse pensamento aí porque daqui a pouco eu trago o argumento da margem de lucro.

Não preciso nem falar que quase 10% dos modelos Avro tiveram acidentes fatais.

Lembrando que estamos falando de uma indústria onde menos de 0,1% dos aviões sofrem acidentes.

Como pode ser 100 vezes mais perigoso voar em avião X versus no avião Y.

Agora me diz por que a LaMia mantinha um BAE de terceira-mão sendo que o resto do mundo inteiro já tinha migrado para Embraer, Bombardier, Boeing e Airbus?

É mais barato comprar um aviãozinho fora-de-linha no mercado secundário, né?

 

4) SE OS PRINCIPAIS CUSTOS DE UM AVIÃO (MANUTENÇÃO E COMBUSTÍVEL) SÃO INDEXADOS AO DÓLAR, POR QUE DIABOS CONTRATAR UMA EMPRESA CUJOS ACIONISTAS SÃO DO PAÍS COM MAIS DIFÍCIL ACESSO AO FLUXO DE DÓLARES?

Regra muito básica da aviação: para operar uma companhia aérea, você precisa de dólares e muitos dólares.

Por que? Como eu falei ali em cima, os custos para operar um avião são indexados ao dólar.

Deu problema num sistema da GE ou da Honeywell? Você vai ter que pagar pela revisão em dólar!

Ou você acha que essas empresas gringas aceitam receber pelos seus serviços em pesos venezuelanos?

Se tiver um tempinho e souber ler em inglês, recomendo que leia o caso da Copa Airlines na Venezuela no maravilhoso site Centre for Aviation.

A Copa teve a brilhante ideia de aceitar receber em peso venezuelano uns 10 anos atrás e acabou sentando em 400 milhões de dólares.

Sim! Do dia para noite, 400 milhões de dólares desapareceram do caixa da empresa por causa da crise na Venezuela. Eles foram meio otários de terem deixado essa grana em território venezuelano em plena ditadura Chavista, né?

Tá precisando abastecer seu avião? Você vai ter que pagar pelo Jet Fuel em dólar!

Agora vamos para o lado macroeconômico dessa treta.

A companhia LaMia tem acionistas venezuelanos e operações na Bolívia.

Na Venezuela, nego não consegue comprar nem papel higiênico e camisinha porque o preço das matérias primas é cotado em dólar e não tem dólar no país.

A Bolívia é farinha do mesmo saco. Evo Morales e Hugo Chavez andaram juntos por muito tempo e transformaram os dois países em lixo!

Agora vamos lá: o Brasil é uma das referências mundiais em segurança de vôo.  Por que você vai confiar numa empresa de um país com zero tradição em aviação?

 

5) SE NÃO TEM DÓLAR NO PAÍS, COMO VAI PAGAR A MANUTENÇÃO DO AVIÃO?

Opa! Não quero entrar no lado técnico da coisa mas meu pai suspeita de que os marcadores combustível gasto e de combustível remanescente do avião não estavam operacionais.

Sabe por quê? Algum problema na manutenção do avião que pode ter deixado aqueles importantíssimos reloginhos inativos.

Segundo meu velho, pane-seca é um erro extremamente infantil na aviação!

É como se um PhD em matemática dissesse que 2+2 são 5.

Ou o cara é muito incompetente para deixar aquilo passar… ou o negócio não tava funcionando.

Manutenção é caro, né? Tem que pagar em dólar!

O mundo inteiro está sensibilizado com essa história da Chapecoense.

Agora procura um piloto de verdade e puxa assunto com ele sobre isso! Ele vai ter um troço… vai ter muita raiva.

Por que todos os pilotos que eu conheço estão em estado de choque maior do que o normal?

Por que, com o tal reloginho funcionando, o negócio era completamente evitável.

 

6) POR QUE O FILHO DA PUTA DO PILOTO NÃO ATERRISSOU EM BOGOTÁ?

Vamos falar de combustível.

Para ir do Ponto A até o Ponto B, você é obrigado a levar combustível para cobrir o trajeto A -> B e mais 10% dessa distância.

Se você está no Rio e precisa de 100 kilolitros para chegar até Belo Horizonte, você tem que levar 110 kilolitros lá dentro.

Isso porque, se você chegar em B e o aeroporto B estiver em más condições climáticas, você ainda tem autonomia para pousar em um aeroporto C.

Esse aeroporto C tem que ficar a uma hora de distância do aeroporto B.

Belo Horizonte tá embaçado? Beleza, tenho autonomia suficiente para pousar em Brasília ou Uberlândia.

Fora isso, o cara tem que ter combustível suficiente para voar mais meia hora em volta do ponto C a 1.500 pés de altitude.

Já saíram relatórios de que o piloto da LaMia levou combustível justinho.

Razão? Não consigo pensar em outra coisa que não seja ECONOMIA DE DINHEIRO!

Se Medellín tava ruim de pousar, por que ele não foi para o Ponto C de Bogotá?

Agora eu volto para um estudo que eu fiz na época que eu trabalhava no equity research do Citi e tinha que vender ações de aéreas para o mercado financeiro.

A gente soltou um relatório provando que investir na panamenha Copa Airlines era melhor do que investir na colombiana AviancaTaca.

Um dos argumentos? O aeroporto principal de cada companhia.

A Copa Airlines manda todos os seus vôos para o Aeroporto de Tocumen, no nível do mar.

O hub da AviancaTaca é em Bogotá, a 2.644 metros de altitude.

Entre os principais aeroportos do mundo, Bogotá é um dos mais caros para se pousar e se decolar.

Por quê? O ar é mais rarefeito na altitude então o avião queima muito mais combustível.

Opa!!!!!

Combustível é cotado em que moeda mesmo?

Dólar!

O boliviano e o venezuelano têm escassez de que moeda mesmo?

Dólar!

O piloto era sócio da empresa. Ele já começou colocando pouco combustível para economizar dinheiro. Afinal, o avião dele é uma merda, bebe pra caramba e tem custo operacional muito alto!

Se ele pousasse em Bogotá, ele ia gastar muito muito muito muito mais dinheiro em combustível tanto para pousar em Bogotá quando para levantar vôo de Bogotá a Medellín.

Afinal, assim como todo piloto latino americano que se preze, ele estava macaco velho de saber que pousar em Bogotá bebe querosene pra caramba.

Se fosse um piloto da GOL ou da TAM, foda-se!

Não tá saindo do bolso dele, mesmo. Segurança em primeiro lugar!

E outra: nunca que a GOL e a TAM deixariam um avião decolar com tão pouco combustível assim.

A GOL, por exemplo, teve prejuízo de 4,9 bilhões de reais só em 2015 (olha essa matéria).

Para continuar operando, eles precisavam economizar grana em vários processos.

Cortaram até o gelo da água dos passageiros. Pergunta se eles colocaram menos combustível nos aviões para segurar a grana?

Nope! Com segurança não se brinca!

No caso da LaMia, a grana do combustível e a taxa aeroportuária para Bogotá tinham que sair do bolso do piloto né?

Já que a Chapecoense pagou 130mil dólares pelo serviço do cara, quanto menos ele gastasse a partir dali, maior seria o lucro dele!

Bogotá nada! A gente vai pousar em Medellín mesmo!

 

7) POR QUE O CO-PILOTO NÃO BOTOU MORAL?

Esqueci de falar lá em cima que meu velho ganhou o tal prêmio Santos Dumont por uma parada que ele fez quando ainda era co-piloto.

O comandante do avião ia fazer merda, ele peitou o cara, botou moral, consertou o erro, fez a coisa certa e salvou todo mundo.

No telefone hoje, ele mandou a seguinte frase pra mim:

“Copiloto não é para ser vaquinha de presépio”

Agora vamos para o caso da LaMia.

Tinha um comandante marrento lá.

Como eu sei que ele era marrento?

Ele não pediu ajuda na hora que tinha que pedir.

Ao invés de gritar emergência para a torre de controle Medellín quando o combustível estava baixo, ele deixou entrar na reserva para fazer isso.

Só reconheceu o erro quando era tarde demais e o outro avião já estava na reta de pouso.

Quando o comandante erra desse jeito, o co-piloto tem que estar lá para peitar ele.

O problema é que, nesse caso da LaMia, havia uma relação entre chefe e empregado dentro do cockpit.

Agora coloque-se na pele do co-piloto boliviano.

Tenho um emprego charter aqui que me paga 3 mil dólares por vôo que eu faço e eu ainda tenho o prazer de carregar grandes jogadores como o Messi no avião.

Imagina se eu peitar esse cara que, além de ser comandante, é o cara que assina minha carteira?

Vou ser demitido e vou ter que arrumar um emprego na Boliviana de Aviación ganhando menos de mil dólares por mês.

Como eu escrevi ali em cima, pode puxar qualquer piloto e ele vai te explicar o quão grotesco foi o erro dos caras da cabine do avião.

Quando um co-piloto vê um erro tão grotesco assim, ele precisa agir.

Não agiu por quê?

Por causa daquele velho fenômeno do power distance.

Se você quiser saber mais sobre isso, pega o livro Outliers:Fora de Série do Malcom Gladwell e vai direto para o capítulo 7 (resumo do capítulo aqui).

Ele ilustra um caso MUUUUITO parecido com esse. Por coincidência, o exemplo que o Gladwell usou é de uma empresa colombiana.

 

CONCLUSÃO

Fatalidade nada!

Foi negligência, excesso de jeitinho e irresponsabilidade!

Se o piloto tivesse sobrevivido, ele teria que responder por dolo eventual.

O barato sai caro! Que possamos colocar esse caso na nossa própria caixa preta e aprender com o erro dos outros.

Vou parar por aqui. Se deixar, eu passo a noite inteira só escrevendo sobre isso.

Por um um mundo com menos “jeitinho brasileiro” e “jeitinho latinoamericano”

~Raiam

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