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Olimpíadas do Dinheiro

A Economia da Indonésia: Olimpíadas do Dinheiro 03

16/05/2016
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Olimpíadas do Dinheiro

Criei essa série com um simples motivo: explicar macroeconomia pro povão com aquele papo reto e direto que eu sempre mando aqui no blog MundoRaiam.

Por que isso? Por que eu tô vendo que nego tá dando muita importância para a porra da Olimpíada.

O que tua vida vai mudar se o Diego Hypólito ganhar a medalha de ouro?

Como eu falei no artigo de introdução da série Olimpíadas do Dinheiro, já estive dos dois lados da moeda e posso dizer que ESPORTE SÓ É BOM PRA QUEM JOGA!

Enquanto a mídia fala daquele atleta russo que é favorito a ganhar a medalha de ouro nas barras paralelas assimétricas, por que não ir contra a maré e falar como a produção de gás natural da Rússia afeta nós aqui no Brasil.

A ideia da série Olimpíadas do Dinheiro é exatamente essa. Toda terça e sábado vai ter um país diferente.

O de hoje é a Indonésia!

 



Capítulo 3: A Economia da Indonésia


Falei sobre a Índia no Capítulo 1 e sobre o México no Capítulo 2 e, em ambos exemplos, comecei a análise com uma história pessoal.

Ao contrário de México e Índia, eu tenho zero identificação pessoal com a Indonésia.

Na real, eu lembro de um episódio que aconteceu no meu primeiro ano lá na Wharton School da University of Pennyslvania.

A universidade reconheceu a necessidade de fechar o gap entre os professores e os alunos e decidiu criar uma série de almoços semanais chamados Faculty Lunches.

A ideia era a seguinte: os professores mais conceituados de Wharton escolhiam um horário e um restaurante top na região e postava na intranet da universidade como se fosse um evento de Facebook.

Os 5 primeiros estudantes que se inscrevessem teriam direito a um almoço 0800 e a oportunidade de trocar ideia com professores mundialmente famosos como Jeremy Siegel (autor do livro Stocks for the Long Run),  Kenneth Shropshire (Sports Business) e Adam Grant (Give and Take, Originals).

Num desses eventos, acabou sentando um muleque da Indonésia do meu lado.

Papo reto: ele me encheu o saco o almoço inteiro soltando argumentos de que a Indonésia era melhor que os BRICS e que nego tinha que incluir um “I” a mais na sigla.

Isso foi em 2008 e o Brasil era o país da moda. Capitão dos BRICS. Terra do líder mais carismático do mundo: Lula.

Vai vendo.

Tudo bem que o muleque era indonésio e, quando você tá em outro país, aquele senso patriotismo cresce em você.

A galera que já fez intercâmbio sabe muito bem do que estou falando. Você acaba sendo um embaixador do seu país e automaticamente entra no mindset de vender seu país para os gringos.

Só que esse muleque chato que sentou do meu lado tinha um brilho no olho diferente. E os argumentos dele, ao contrário dos meus pró-Brasil, eram muito mais baseados em razão do que em emoção.

Fiquei com aquilo na cabeça por alguns anos: será que a Indonésia é tão foda assim?

E se for mesmo, por que ninguém dá moral pra ela?


 

 



Indonésia é BRIC?

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Pra mim, essa parada de BRIC morreu junto com o ciclo das commodities.

A partir do momento que o preço do petróleo, dos minérios e das commodities agrícolas começaram a cair, toda aquele oba-oba em volta dos BRICs foi por água abaixo.

A Rússia apanhou dos árabes que fizeram dumping de petróleo e quebraram a principal fonte de receita de Putin e cia. O gás natural caiu junto e parece que Moscou tá mais fudida que a gente.

A China apanhou dela mesma.

E o Brasil apanhou da desaceleração da China.

Só sobrou a Índia que continua bem das pernas crescendo 8% no ano.

Na real, a Indonésia só não está no BRICs porque o BRICs é um termo criado pelo economista Jim O’Neill do banco de investimento Goldman Sachs.

Ué? A lista é dele e ele coloca o país que ele quiser, né não?

Depois do surgimento dos BRICs, vários países como o México, a Turquia e a própria Indonésia ficaram com dor de corno.

Para alimentar o ego dessa galera, essas sopas de letrinhas de economias emergentes acabaram virando moda pelo mercado financeiro.

Resultado? Indonésia não é BRIC mas tá na lista dos MINT (Fidelity Investments), Next Eleven (Goldman Sachs), Emerging 7 (PriceWaterHouseCoopers), CIVETS (The Economist) e 3G (Citigroup).


 


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O melhor dos dois mundos

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A Indonésia é um país diferenciado porque é basicamente a única economia do sudeste asiático que tem o que eu chamo de “o melhor dos dois mundos”.

Mas que mundos, Raiam?

Mundo 1: países que são pesados em recursos naturais mas não têm gente tipo a Austrália.

Mundo 2: países que são pesados em mercado consumidor mas não têm recursos tipo o Japão.

Assim como o Brasil, papai do céu abençoou a Indonésia com o melhor dos dois mundos: eles têm matéria prima para exportar e podem confiar no mercado consumidor interno se a economia mundial soluçar.

Afinal, são 260 milhões de consumidores né?!

E são 260 milhões de pessoas relativamente ricas.

Relativamente, né?

O PIB per capita da Indonésia é de 3500 dólares (Banco Mundial).

Se você chegou agora, PIB per capita é uma simples conta de dividir.

Pega o PIB total do país e divide pelo número de habitantes… assim você mede a riqueza relativa que cada habitante produz para a economia local.

E é tudo medido em dólar para poder comparar maçãs com maçãs.

Com o dólar a 3.50, isso quer dizer que o Indonésio médio ganha 12.250 reais por ano, ou pouco mais de 1.000 reais por mês.

É pouco né?

Mas eu disse relativamente!

Se liga no PIB per capita de países vizinhos: Filipinas (2700 dólares), Índia (1500 dólares), Vietnã (1500 dólares) e Bangladesh (838 dólares).

 


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O minério é nosso

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A Indonésia tem uma geologia muito boa para mineração.

Além de ser o #1 do mundo em produção de estanho, a Indonésia também tem altas reservas de bauxita, prata, cobre, níquel, ouro e carvão mineral.

Quem consome essa porra toda aí?

Acertou quem disse China.

E aonde é a China?

Pertinho da Indonésia.

Que top, né? A Indonésia foi abençoada duas vezes nesse sentido: primeiro por ter recurso mineral e segundo por estar bem pertinho do maior comprador de minérios do mundo.

Só que o governo indonésio baixou um decreto chamado pelos economistas de Domestic Market Obligation.

O que é o DMO?

Vou simplificar aqui: tudo o que a Indonésia extrair vai ser usada para fortalecer o mercado interno. Ponto final!

A China tá bombando e precisando comprar carvão da Indonésia?

Foda-se!

Para o governo atual, o carvão produzido aqui vai ficar aqui.

Eles têm aplicado um protecionismo desse nas importações também, só que em menor escala.

Um exemplo disso foram as barreiras impostas à importações de gado australiano.

Argumento? A Indonésia tinha que desenvolver sua auto-suficiência nesse mercado.

Tô ligado que aconteceu algo parecido aqui no Brasil nos anos 1980 e não deu muito certo não.

Vamo ficar de olho!

 



Yes, nós temos petróleo

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Falei no episódio 1 da série que a Índia apanhou durante anos e anos porque precisava importar tipo 80% do petróleo que ela consumia.

Para um país com mais de 1 bilhão de habitantes onde nego é apaixonado por carro, isso acaba sendo petróleo pra caramba!

A Indonésia teve um pouquinho mais de sorte: além de ser o décimo maior produtor de gás natural do mundo, a Indonésia também tem boas reservas de petróleo em Java, Sumatra e Borneo.

Fora isso, ela é membro da panela da OPEP e tá fechada com os petrodólares do Oriente Médio (o fato de a Indonésia ser um país essencialmente muçulmano ajuda muito no lobby com os árabes).

Assim como no México, o estado é dono dos campos de petróleo.

Só que na Indonésia, quem toca a exploração e produção são empresas gringas que fazem parceria com o governo.

Nos anos 1980, a Indonésia era uma grande autoridade em termos de exportação de petróleo só que hoje o negócio está cada vez menos importante para a economia da Indonésia.

Primeiro porque o petróleo tá bem mais barato agora nos mercados mundiais, né?!

Segundo porque o mercado consumidor interno está cada vez mais desenvolvido então a fatia do PIB que é vem do consumo de indivíduos vem engolindo o setor extrativista.

Bom sinal!





Fragmentada por natureza

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Lembra que eu falei no primeiro episódio que a Índia era um caso de 20 países dentro de 1?

Nesse sentido, a Indonésia acaba sendo a Índia com esteroides anabolizantes Durateston.

E o pior não é nem a questão da comunicação.

O grande problema é que a Indonésia é fragmentada por natureza.

Olha esse mapa da foto ali de cima.

São 260 milhões de pessoas habitando 17 mil ilhas e falando 742 línguas diferentes.

Como é que você coloca um governo central para liderar uma bagunça dessas?

Eles tentaram centralizar o poder em Jakarta por décadas e décadas mas o negócio não deu muito certo não.

Daí no início dos anos 2000, eles decidiram fazer um negócio chamado Big Bang Decentralization.

Ao invés de controlar os investimentos do governo diretamente da capital Jakarta, o país começou a espalhar essa grana pelas ilhas.

Resultado: o país começou a se desenvolver como um todo.

Tinha corrupção… e continua tendo.

Só que com o poder cada vez mais descentralizado, a corrupção também fica cada vez mais descentralizada.

Menos mal!

 



A regra da segunda cidade

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O Ruchir Sharma faz um ponto interessantíssimo no livro Breakout Nations sobre a descentralização do poder em países emergentes: simplesmente olhe para a segunda cidade mais populosa do país.

Essa segunda cidade tem que ter no mínimo 30% da população da primeira.

Quando a riqueza é toda concentrada na capital do país, isso acaba sendo um red flag fudido.

Vamo pegar uns casos bem básicos:

O Brasil tem São Paulo com 12 milhões e Rio com 6 milhões. Passou no teste = 50%.

No caso do México, tem a Cidade do México com 8.9 milhões de habitantes e Guadalajara com 1.5 milhões.

Matemática básica: a segunda cidade tem 16% da população da primeira cidade.

Segundo Sharma, isso é sinal de que o país tem um problema crônico de corrupção, concentração de poder, politicagem e desigualdade de desenvolvimento.

A Indonésia tem sua capital em Jakarta (10 milhões de pessoas). Daí tem a segunda cidade de Surabaya com 3 milhões. Passou raspando = 30%.

O que significa isso na teoria do Sharma? Que o poder é bem-dividido e as regiões do país têm mais facilidade para se desenvolverem juntas.

 



Nação empreendedora

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Mano, tem 50 milhões de pequenos negócios na Indonésia!

É como se todos os habitantes da Espanha tivessem um CNPJ.

Mais ou menos né?!

Porque a maioria avassaladora da galera que empreende na Indonésia vem do mercado informal, assim como no México (lembra que eu toquei nesse assunto no capítulo 2 da Olimpíada do Dinheiro?).

De acordo com uma pesquisa de 2011 da BBC Business, a Indonésia é o melhor país para empreendedores começarem um negócio.

Esse ranking da BBC aí de cima veio muito mais de uma pesquisa de opinião do que de um estudo complexo daqueles do Global Competitiveness Report.

Para simplificar o processo, os caras fizeram 4 perguntas:

  1. O seu país valoriza a inovação?
  2. É fácil para uma pessoa normal abrir um negócio no seu país?
  3. As pessoas que abrem negócios são bem vista no seu país?
  4. As pessoas com boas ideias colocam elas em prática no seu país?

Realmente é um case a se estudar, hein?

Se tiver um tempo sobrando, dá uma olhada nesse artigo interessante do jornal inglês The Guardian sobre o crescimento das “social enterprises” na Indonésia.





Traficante bom é traficante morto!

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Lembra daquele brasileiro que foi para o corredor da morte ano passado porque encontraram não sei quantos quilos de cocaína dentro da armação da asa delta dele?

Aquele episódio foi uma prova viva de que a Indonésia tem zero piedade para traficante de drogas! 

E parece que o negócio apertou ainda mais esse ano.

Além de manter a tolerância zero quando o assunto é tráfico de drogas, o governo começou a meter o pau nos puteiros também… começando pela capital Jakarta (Business Insider: Indonesia looks to close all red-light districts by 2019).

Apesar de tomar calor de grandes líderes mundo afora como Angela Merkel, o presidente Joko Widodo é assertivo e irredutível quando o assunto é pena de morte pra traficante.

O negócio dele é mais ou menos assim:

“Veio para o meu país vender droga para meu povo? Vai morrer, otário”

Aliás, recomendo um excelente livro chamado Snowing in Bali que descreve muito bem o submundo das drogas no paraíso turístico de Bali na Indonésia.

É claro que não neva em Bali. O “snowing” do título é uma metonímia para a cor branca do pó de cocaína que toma conta das noitadas de Bali.

Já até resenhei esse livro lá nos primórdios desse humilde blog. Depois dá uma olhada lá em Resenha: Snowing in Bali (Kathryn Bonella).



Leitura recomendada

Gostou do meu resumão informal e quer se aprofundar no assunto Indonésia? Segue aí a lista de leitura:

Breakout Nations: In Pursuit of the Next Economic Miracles – Ruchir Sharma

The Growth Map – Jim O’Neill

Snowing in Bali – Kathryn Bonella

Comer, Rezar, Amar – Elizabeth Gilbert

 



Livro Wall Street

CAPAFACE

Bom, como muitos de vocês sabem, passei dois anos da minha vida trabalhando na bolsa de valores de Nova York.

Dos 21 aos 23 anos, eu participei daquele oba-oba todo do boom das commodities, do Eike Batista e do real super-valorizado.

Para você ter uma ideia, eu ganhava uns 30-40mil reais por mês só pra fazer planilhas de Excel e enfeitar apresentações no PowerPoint.

Quer saber mais detalhes do que realmente rola dentro de um banco de investimento, sem censuras?

Leia meu novo livro Wall Street!

Ele está disponível em formato e-book no Amazon e em formato audiobook no Ubook.


 



Próximo Capítulo
norway

O próximo país a ser “analisado” na série Olimpíadas do Dinheiro vai ser a Noruega.

Sábado eu tô de volta!

Abraço

~Raiam


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